Natureza, história e mar se encontram em São Chico, cidade visitada pelo Datafolha

Ilha catarinense foi um dos 197 municípios pesquisados para esta edição

São Francisco do Sul, em Santa Catarina, uma das 197 cidades visitadas pelo Datafolha para o Top of Mind 2019

Deque voltado para a baía da Babitonga, em São Francisco do Sul, litoral norte de Santa Catarina Roberto de Oliveira/Folhapress

Roberto de Oliveira
São Francisco do Sul (SC)

Vez ou outra, um carro cruza a avenida de casario colorido, que fica bem de cara para a baía da Babitonga, quebrando o clima de nostalgia do lugar. Turistas gostam de algazarra na hora de bater uma foto. Quando partem, o silêncio, algo raro nestes dias insanos, impera. 

Moradores costumam sentar-se nos banquinhos voltados para o mar. De lá, apreciam a paisagem. É nesses instantes, quando o olhar se fixa no espelho de água, que se percebe uma das graças de São 
Francisco do Sul
: os golfinhos!

São animais bonitos de ver, principalmente quando se exibem, numa espécie de balé sincronizado, atrás de cardumes. Assim como surgem, eles desaparecem num movimento célere. Parecem nos mandar um recado: o da resistência desses bichos ao crescimento urbano desenfreado e desigual. Naquele pedacinho do litoral norte de Santa Catarina,  bem diante da baía, ergue-se um pequeno e charmoso centro histórico.

 
São Francisco do Sul, em Santa Catarina, uma das 197 cidades visitadas pelo Datafolha para o Top of Mind 2019
Vista do centro histórico de São Chico, uma das cidades mais antigas do Brasil - Roberto de Oliveira/Folhapress


Carinhosamente chamada de São Chico, a cidade se apresenta como a terceira mais antiga do país, ao usar como data de fundação a chegada do navegador francês Binot Paulmier de Gonneville, em 5 de janeiro de 1504. Na verdade, não houve uma fundação. Pelo relato de Gonneville, houve, sim, a instalação de uma cruz, numa elevação sobre a baía da Babitonga, provavelmente no local que hoje se denomina Morro da Cruz.

O primeiro povoado, contudo, foi erguido por espanhóis, em 1535. Já a povoação portuguesa começaria em 1658, pelo colonizador Manoel Lourenço de Andrade. Dois anos depois, o lugar ascendeu à categoria de vila e, em 1665, tornou-se paróquia —a atual matriz, a Igreja de Nossa Senhora da Graça, que embeleza a praça central, teve sua construção iniciada naquele ano.

Situada numa ilha, São Chico pode parecer ao forasteiro de primeira viagem a confluência de três cidades distintas: a do centro histórico, com ao menos cem imóveis tombados, que remetem à imigração açoriana na região, a das praias, procuradas por veranistas de diferentes perfis, e a do distrito fixado no continente, de cuja paisagem se destaca uma capela.

São Chico é um dos 197 municípios visitados pelo Datafolha que deram origem à pesquisa Top of Mind, a 29ª até agora. Ao todo, 490 profissionais estiveram envolvidos (desse total, 453 foram a campo). Em São Francisco do Sul, assim como nas demais cidades pesquisadas, o Datafolha aplicou um questionário com 50 perguntas, que levaram entre 15 e 20 minutos para serem respondidas. De cada ponto do país, os pesquisadores encaminharam os dados registrados em tablets, pela internet, para a sede do instituto, em São Paulo.

 

Na praia de Ubatuba (não a paulista), Lia Kurowski, 44, gaúcha de nascimento, baiana de alma e moradora de São Francisco do Sul desde junho de 2008, diz que a cidade vem se modernizando a cada nova temporada. “Quem vem de fora sempre traz consigo alguma novidade. Só que muitos produtos a gente não encontra por aqui”, diz ela, dona do restaurante Dom Veleiro, que, inaugurado em setembro deste ano, começa a fazer sucesso na ilha.

São Francisco do Sul, em Santa Catarina, uma das 197 cidades visitadas pelo Datafolha para o Top of Mind 2019
Interior do restaurante Dom Veleiro, na praia de Ubatuba, em São Francisco do Sul - Roberto de Oliveira/Folhapress


Há três anos, ela e a família vinham alimentando o sonho de abrir um restaurante que servisse pratos à la carte. De Porto Alegre, ela trouxe o chef Emerson de Souza. O filho, Maikel Kurowski, apoiador da causa, deixou Gramado (RS) para trabalhar ao lado da mãe como sommelier. 

“Nosso objetivo é desenvolver um cardápio mais selecionado, com uma cozinha que não se restrinja ao peixe frito mergulhado no óleo”, brinca. “Nem a uma carta trivial de vinhos, limitada a ofertas de Chile, Argentina e Brasil”, explica, para, em seguida, complementar que muitos desses produtos não são encontrados em São Chico. “Vinhos, temperos mais sofisticados, louças mais modernas e até um simples feijão-fradinho, a gente precisa comprar em Joinville.”

Empresário daquela cidade que trabalha no segmento hoteleiro, Juarez Batista, 39, faz um bate e volta diário, ao percorrer os cerca de 50 km que separam Joinville de São Chico. Ele conta que, nos últimos 12 meses, grandes redes de supermercados de Santa Catarina aportaram na ilha. “Mesmo assim”, diz, “a oferta é escassa”.

“Preciso fazer as compras em Joinville para suprir a demanda. Aqui, sinto falta de variedade de bebidas. Se o produto for um pouco mais sofisticado, novo no mercado, você não encontra. As empresas e as grandes marcas precisam se conscientizar sobre a necessidade de a gente atender a essa clientela mais diversificada, formada pelos turistas”, afirma.

Estimativas da Secretaria Municipal de Turismo revelam que 2 milhões de turistas, em média, visitam São Francisco do Sul anualmente. A maioria dos visitantes é oriunda de cidades vizinhas, como Joinville e Jaraguá do Sul, e possui uma segunda residência, de veraneio, em alguma praia.

O portfólio de São Chico à beira-mar é bastante generoso. Há praias urbanizadas: Enseada, Ubatuba e Itaguaçu, de movimento intenso, são ideais para famílias. Sensação dos surfistas, a Prainha tem diminutivo só no nome, pois o mar que chega lá vem em ondas gigantescas. Ao lado dela, fica o Morro de Sambaqui, um ponto que proporciona vista privilegiada tanto da terra quanto do mar. 

A Praia Grande é a mais deserta e extensa, estendendo-se ao longo de quase 30 km ladeada por dunas e densa área de restinga que formam o Parque Estadual do Acaraí. Ideal para quem procura uma conexão mais íntima com a natureza.

São Francisco do Sul, em Santa Catarina, uma das 197 cidades visitadas pelo Datafolha para o Top of Mind 2019
Vista da praia do Forte, em São Francisco do Sul, litoral norte de Santa Catarina, uma das 197 cidades visitadas pelo Datafolha para o Top of Mind 2019 - Roberto de Oliveira/Folhapress

Por toda a baía da Babitonga, existem ao menos 24 ilhas e ilhotas —algumas delas podem ser visitadas. A principal fonte de renda do município, atualmente com um pouco mais de 52 mil habitantes, está ligada à atividade portuária. Calcula-se que 70% das famílias dependam do que entra e sai do porto de São Francisco do Sul.

Não é o caso de Lia, a personagem apresentada no início desta reportagem. Ela mantém um histórico laço com a gastronomia. Aprendeu a cozinhar, ainda menininha, com a mãe, sua mais importante inspiração até os dias de hoje.

Desde 2012, antes de investir em espaço próprio, vinha trabalhando com pequenos negócios. Fez frango no balde (tipo KFC caseiro), acarajé, vatapá, caruru (sem nunca ter pisado na Bahia) e, é claro, churrasco gaúcho.

Mãe de santo da umbanda, filha de Oxóssi, preserva uma relação constante com a natureza e seus habitantes. “Apesar do desenvolvimento, São Chico ainda guarda muito verde, pássaros e golfinhos. "Precisamos controlar o que descartamos.”

Em seu restaurante, optou por estruturas e móveis feitos totalmente com material de demolição. Da janela, Lia consegue apreciar a paisagem e ouvir o canto melodioso dos passarinhos. Basta uma pausa e logo corre para espiar o movimento constante das marés. Para ela, melhor lugar insular não há.

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